Longa espera noite adentro

Dois mestres budistas se encontram na entrada da sala de meditação. Lá dentro da sala, um grupo jovens estavam há horas numa única posição. O intuito era alcançar um ponto além do cansaço e vencer o desejo do sono, da fome e das perturbações dos pensamentos e sentimentos. No entanto, as dificuldades desse grupo eram imensas…

Um dos mestres reclama para o outro:

– As pessoas mudaram. Antes os que chegavam até aqui se esforçavam para ficarem acordados durante as meditações, agora, cada vez mais eles adormecem.

– Entendo. Comigo acontece o mesmo. Uso essa pequena vara para chamar a atenção dos dorminhocos. Antes, apenas uma leve batida e eles se endireitavam. E eram poucos os que dormiam. Mas outro dia, de tantos que eu tive que constantemente acordá-los, a vara acabou quebrando e eu machuquei o pulso.

– Eles não conseguem entender o propósito, vêm com o desejo de fugir do mundo, mas nem isso conseguem, trazem o mundo junto com eles e, logo, logo, caem no mesmo sono de antes, de como quando viviam suas vidas.

Os dois mestres fazem um cumprimento um ao outro, como se constatassem que a vigília havia se tornado um artigo cada vez mais raro, e entram na sala…

Esta história me foi contada por minha mestra e ilustra a necessidade da vigília e do esforço de permanecer acordado num caminho espiritual, assim como os equívocos de uma busca espiritual visando um vida de relaxamento.

O esforço é necessário para que não voltemos ao estado de sono e nem passemos a usar a espiritualidade como fuga da realidade. O mundo e a vida que vivemos aqui são à noite que precisamos atravessar. À noite para qual os mestres nos preparam.

Manter-se atento é necessária para que possamos ser a vigília de nós mesmos e não nos deixamos cair na tentação da inconsciência, do sono, ou do embotamento por emoções turvas ou pensamentos excessivamente racionais e lógicos – a espiritualidade tem outra lógica e nem sempre com o nosso raciocínio vamos alcançar e entender o caminho que precisamos trilhar

A vigília para atravessar a noite nos impõe a atenção, para que possamos estar acordados quando chegar o raiar do dia. Só no sol da consciência teremos a iluminação. E quem sabe, um dia, possamos vigiar o sono daqueles esquecidos da própria Alma.

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