O que vem a ser a entrega?

A entrega é como uma bandeira branca na nossa necessidade de controlar, de querer saber e dominar o que está ao nosso redor. Na entrega procuramos dominar nós mesmos, nossas paranóias e obsessões. Dominar a nossa curiosidade, nossa necessidade de saber, de entender, de nos sentirmos confortáveis, compreendidos e compreendendo o mundo, os outros ou a nós mesmos.

Para entregar devemos estar dispostos a largar hábitos, padrões e desejos. Por exemplo, aqueles que gostam que os outros recorram a eles, devem abdicar de serem a fonte da informação, de serem necessários para algo ou para alguém. De serem vistos, amados, ou inseridos no que quer que seja. Devem estar dispostos a quase serem suprimidos, suprimir o desejo que até então era vivido de forma natural e espontânea.

Seria uma desistência, mas a entrega não tem a ver com desistir. É mais fácil desistir do que entregar. É como um abandono, mas é preciso amor nesse abandono, e não descaso. O personagem de Harrison Ford, em certa altura do filme Blade Runner 2049, fala da entrega por amor, quando diz algo como: às vezes é preciso não saber para amar.

A entrega é ter um livro que você ama mesmo assim conseguir emprestá-lo sem pensar se o outro vai ter o mesmo cuidado que você, sem medir isso. É passar num grupo de amigos que conversam sobre você e não ouvir, nem perguntar o que falavam. É permitir que outros entrem no seu quarto e escolham roupas para dar, sem entrar em crise. É fechar os olhos e se deixar ser guiado na cobra cega, é abandonar apegos, medos e controles pela liberdade de ser, sem se preocupar se vai ter… pessoas ou coisas. Se irá conseguir que algo aconteça da forma que quer que aconteça.

A entrega se assemelha ao ato de deixar um filho na porta de um templo, na confiança que ali ele será bem cuidado, alimentado e se tornará grande. É abdicar de uma forma pré-concebida de ser, e ser da forma que o Criador desejou para nós.

No final das contas, talvez seja interessante pensar que nosso ego é o filho que deve ser deixado na porta do templo, entregue por amor. É claro, que em se tratando de um trabalho com o ego, entregá-lo requer confiança e entender que somos como a “cabra
cega” sendo guiados para um novo eu.

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