Histórias e Contos

A Busca

Alguém batia a porta. Ele acordou sobressaltado. Teve medo, mas levantou-se mesmo assim e foi atender quem chamava. O vento zunia do outro lado e com o coração em disparada ele pôs a mão na maçaneta. Ao abrir, a claridade de fora, com seu calor, lhe partiu em milhões de pedaços, como se cada raio do sol fosse uma flecha transpassando-lhe o corpo. Sentiu dor, mas a dor se diluiu na luz, que lhe tomou por completo numa sensação misturada de amor. Acordou ainda com essa sensação, envolvido numa paz esticada além dos limites que conseguia entender.

Uma luz fraca começava a inundar o dormitório. Era o dia, que mesmo sem ter chegado completamente, se fazia anunciar a distância. Sentou-se na cama e passou os olhos no dormitório, nas outras dez camas onde todos ainda ressonavam. Ajoelhou-se para fazer as primeiras orações da manhã e veio-lhe a mente a imagem de seu instrutor, Sr. Tamim, durante a aula da noite anterior, ensinando como a aplacar a solidão e as carências. Queixas de quase todos os aspirantes.

– Deve-se treinar a mente para permanecer constantemente no presente e direcionar toda a atenção no que se está fazendo, falando, pensando e sentindo. Só assim a vida fluirá espontaneamente. Cada um deve ser o que diz, o que faz, o que sente e o que pensa. Concentrem-se nisso e não haverá tempo para solidão ou carências.

Os sacerdotes eram donos dos seus pensamentos, senhores de cada passo, de cada palavra que lhes saia da boca e eram felizes com a sua própria companhia, ao passo que ele, tinha dias que não suportava a solidão. Mas como ser assim, de uma forma espontânea, sem dizer e sentir coisas que podem nos destruir ou a outras pessoas, magoá-las ou feri-las? Sem agir pelo impulso instintivo? Certamente, o Sr. Tamim não falava aos ouvidos do instinto, pensou.

Especialmente as memórias lhe eram traiçoeiras, traziam emoções nas quais ele se debruçava e em pouco tempo estava completamente distraído, envolvido num emaranhado de conjecturas e fantasias, como se parasse a beira de um lago sem conseguir decidir se devia atravessá-lo a nado, molhando intensamente cada parte do seu corpo, vivendo as braçadas, o fôlego e o vazio abaixo dos seus pés ou se pegava o bote e apenas rasgava a superfície, dando um pouco de movimento as águas. No máximo, molhando a ponta dos dedos das mãos ao segurar o remo. “Era preciso concentrar-se e treinar, treinar até quase a exaustão”. Quase ouvia o Sr. Tamim lhe falar.

Levantou-se. Colocou uma velha bata sobre o corpo e saiu do dormitório, foi à área de serviço buscar uma vassoura, um balde com água e sabão, o cesto de lixo e a pá. Havia meses estava encarregado de fazer a faxina do pátio e era seu hábito acordar antes do sol sair completamente, para que cedo, o pátio inteiro já estivesse limpo. Assim, o Mestre, quando estivesse mergulhado em suas meditações, que fazia todas as manhãs num pequeno coreto a céu aberto, na extremidade leste do pátio, poderia desfrutar da mais profunda tranqüilidade, sem os atropelos de uma faxina ao seu redor.

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Bateu nas almofadas e limpou as pilastras. Passou um pano seco no pequeno altar, limpou o incensário e colocou novas velas nos castiçais. Molhou o chão de mármore frio, onde, depois de seco, colocou no centro o pequeno tapete de palha trançada e as almofadas. Quando dava por terminado esta parte da faxina viu o Mestre e dois discípulos saírem pelo portão. Já há algum tempo, devido a problemas de saúde, os médicos haviam recomendado ao Mestre caminhar pelo menos 30 minutos por dia, sem parar. Desde então, de manhã cedinho, era comum vê-lo sair para dar algumas voltas numa praça a duas quadras dali. Normalmente algum discípulo mais chegado fazia questão de acompanhá-lo. Talvez, pensou, esse tempo fosse suficiente para que ele terminasse de limpar o restante da área.

Quando começou a despejar a água com sabão para lavar as lajotas da parte central do jardim, ouviu os primeiros sons na cozinha, era o sinal de que estava atrasado. Apressou-se. Gostava de esfregar lajota por lajota, mas dessa vez não daria tempo, cuidou.

Enquanto esfregava e molhava o chão, lembrou-se do dia em que entrou pelo portão do mosteiro. O senhor Tamim lhe mostrou o jardim e depois o fez sentar num dos bancos, perto da entrada. Um sol morno os aquecia.

Ele queria saber o que era preciso para viver ali e o Sr. Tamim olhou-o detidamente. Passou-se não mais que um instante, mas foi uma fração tão longa…onde os olhos mergulharam nos olhos, falando segredos…mistérios. Palavras incompreensíveis que ele recebia com ardor, um silêncio reverenciado. Já estava preste a dizer que faria qualquer coisa, qualquer coisa, só queria retornar. Para onde? Nem ele sabia dizer, retornar era a única coisa que lhe vinha a mente.

O Sr. Tamim falou que ali se vivia a Iniciação, a consciência plena de si mesmo, a redescoberta da alma…Para chegar a Iniciação era preciso muito trabalho, uma vida reclusa, não necessariamente longe do mundo, mas inevitavelmente reclusa dos desejos. Uma vida cheia de abstenções e serviço, sem garantia de nada. Muitos não suportavam e desistiam, cedendo as dúvidas e a desesperança, confusos e céticos a respeito de um futuro que lhes parecia irreal…

Mas ele permaneceria, disse, não pensaria em nada, guiar-se-ia apenas pelos olhos internos que, volta e meia, o visitavam nos sonhos e no reflexo do espelho.

O Sr. Tamim apenas olhava, mas era como se lhe atravessasse os olhos e vislumbrasse alguma paisagem além.

A conversa se estendeu por quase uma hora e ele se despediu decidido. Uma semana depois estava de volta, carregando uma pequena maleta onde estava tudo que lhe pertencia. Foi recebido pelo Sr. Tamim, que o levou ao Mestre. O Mestre o abraçou longamente e lhe falou de amor, um amor tão puro que não conseguiu guardar o sentido, apenas o calor do abraço.

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Não deu por conta de que o Mestre já havia retornado, só o viu quando passou por ele, já de roupa trocada e tomado banho, lhe desejando bom dia. Depois, sentou-se numa das almofadas do coreto e acendeu o incenso e as velas. Às vezes, ficava horas em meditação, sempre em jejum, era quando todos procuravam fazer o maior silêncio, para não perturbar suas orações.
Lamentou não ter conseguido terminar completamente a faxina, mas ao menos, faltava a menor parte. Agora, era só apanhar as folhas secas, algumas frutas já amareladas, os gravetos e as flores murchas do jardim. Podia fazer isso silenciosamente.

E assim, caminhando entre papoulas e pés-de-felicidade; carambolas maduras caídas pelo chão e o perfume de pessegueiros em flor, e das roseiras que coloriam o jardim, ele foi se abandonando, esquecendo-se do tempo e deixando-se impregnar pelas plantas. Lembrou e esqueceu, mais uma vez, das palavras do instrutor e do olhar calmo do Mestre ao lhe desejar bom dia.

 

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