A Homossexualidade e a Torah (uma reflexão)

“Dois homens procriam?”, uma vez me fizeram essa pergunta.

Sei que independente de religião a visão estreita e estrita sobre a homossexualidade, masculina e feminina, tem sido um tema difícil no Brasil e no mundo.

Eu poderia ter falando que a orientação sexual não é uma escolha, tem a ver com questões biológicas, com a natureza. Isso é comprovado inclusive vendo que a ela existe na natureza, claramente entre os animais. Um outro argumento, é que a própria psicanálise (Freud) já apontou até a bissexualidade no ser humano como algo natural. Afinal, “Macho e Fêmea Ele os criou”. No mínimo, podemos dizer que temos os dois polos dentro de nós.

Não julgar

Primeiro acho que vale a pena lembrar a própria Bíblia diz para não julgar. E que até Jesus evitou se colocar na posição de juiz (vide a história da mulher que estavam querendo apedrejar). Assim, não julgar é uma qualidade (ou capacidade?) que a Torah pede para ser desenvolvida em cada pessoa… Ela afirma que o Juiz é o Criador.

Jesus também não falou sobre sexo. Penso que provavelmente porque não é um tema que mereça atenção demasiada. Normalmente, o sexo só deveria merecer nossa atenção na adolescência, quando se vive a sua descoberta, depois disso deveria ser incorporado como fazendo parte do ser – mas entendo que não é assim. Acredito que o sexo se torna um tema importante quando ele vira uma obsessão, e o motivo central de uma vida… quando só pensamos nisso e vivemos em função do prazer unicamente. Aí ele se torna um problema… Do contrário, o sexo deve ser entendido como uma necessidade fisiológica, e resolvida assim, sem tantas culpas. Essa história da culpa e do pecado no sexo já trouxe muito divã para a humanidade, está na hora de enxergar isso como algo natural – no sentido de que vem da natureza.

Está escrito na Torah

Um argumento utilizado para atacar as relações de mesmo sexo é: Está escrito na Torah. Vale lembrar que boa parte das restrições estão em Levíticos, mas os mandamentos estão descritos em Êxodo, Números e Deuteronômio também (creio que estão todos nestes). O apóstolo Paulo também fala sobre a homossexualidade nas suas epístolas, mas não vou tratar do que fala Paulo, porque considero que ele se baseia na Torah, não nos ensinamentos de Cristo.

Para mim nada que está escrito na Torah é literal, ali estão questões que envolvem verdade e ética, um processo de construção e de expansão do amor que deve ir nos fazendo voltar para o Criador, nos iluminando e revelando realmente quem nós somos. E esse processo é, definitivamente, amoroso.

É importante lembrar também que lá (na Torah) estão escritas leis que hoje não tem o menor sentido, como: Não raspar o cabelo na lateral, não cortar barba com navalha, comprar escravo de acordo com as leis prescritas, agir de acordo com as decisões do Sinédrio (esse mandamento levou a pena capital de Jesus), e que o estuprador deve se casar com sua vítima se ela não for casada… são ao todo 613 mandamentos, não só 10.

Contudo, D’us estipulou 10 mandamentos apenas. Esses 10 mandamentos são leis gerais. E Jesus foi além, reduziu essas leis a duas: Amar a D’us sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo. Ele ainda fala em tratar a todos como amigos como ele nos tratou.

Pormenorizar as leis foi uma necessidade do povo que estava atravessando o deserto com Moises ao longo de 40 anos de Êxodo. Foram os juízes que detalharam a lei. A intenção era incutir um mínimo de civilização numa turba difícil de encontrar uma unidade… Afinal, bastou Moises se ausentar por um tempo e o povo resolveu rapidamente construir um bezerro de ouro. Eles reclamavam de tudo. Havia intriga, brigas e, provavelmente, assassinatos. A Torah fala que os Hebreus entraram em número de 70 no Egito e sairão 600 mil, o tamanho de um cidade média brasileira, vale ressaltar. Imagine 600 mil pessoas, de todo tipo e índole, viajando pelo deserto durante 40 anos. Devia ser um caos. Se formos pensar tudo no literal, é importante levar isto em consideração, e avaliar como seria difícil manter a ordem dessa população sem leis rígidas.

Então, as leis que vão no pormenor de como viver, inclusive na cama, foram escritas pelos juízes, a quem Moises delegou e compartilhou o dever de dirigir o povo, que se digladiou entre si até as vésperas de entrar na Terra Prometida… Por isso, vejo que muitas dessas leis podem ser temporais, se referem a costumes e necessidades de uma época, e devem ser lidas para aquele momento específico. Deixam de ter sentido fora daquele contexto e para aquele povo específico. Era um mundo obscuro. As leis que têm um sentido ético e moral conseguem avançar mais no tempo e perdurar.

Mas continuando o raciocínio…

Outras leis também podem ser temporais, não porque servem para um período específico da constituição de uma civilização, onde regras restritivas são muito importantes. Elas podem ser temporais porque não se está maduro o suficiente para entender e saber lidar com algo que está fora da regra geral. Acho que é razoável pensar que para apaziguar e domar uma cidade caótica (600 mil!), é melhor fazer leis para a maioria, sacrificando as minorias. Afinal, fica difícil definir todas as excessões.

Assim, quando é dito: “Não coma desse fruto porque morrerás”, sabemos que Adão e Eva comeram do fruto, mas não morreram de fato, apenas simbolicamente. Porém, tiveram que assumir a responsabilidade de sua escolha e as consequências. Penso assim, D’us nos deu o livre arbítrio e se achamos que podemos ir por um determinado caminho, precisamos nos responsabilizar pela escolha e fazer o melhor no caminho que nos propomos a seguir. Se a escolha não fará mal a ninguém (nem atentará contra você), porque não seguir… os frutos dessa escolha estarão no futuro e serão eles que dirão se ela foi benéfica ou não.

Ainda falando da Lei, assim como foi dito a Adão e Eva, da mesma forma falamos para uma criança não fazer algo, simplesmente porque ela não tem ainda consciência suficiente ou capacidade para lidar com o que quer fazer. Mas ela pode crescer e entender isso e estar apta a fazer. E aquilo que era uma negativa antes, uma lei, deixa de ter sentido. Acredito que a nossa civilização pode crescer e ter direito a uma compreensão um pouco mais complexa da realidade, onde o macho e fêmea não estão assim tão nitidamente separados.

Dois homens procriam?

Sobre procriar ou não procriar, entendo que os mais diferentes casais, heteros ou homossexuais, podem decidir por não ter filhos. Porque procriar tem a ver com multiplicar (crescei e multiplicai-vos). Assim, podemos (pro)criar obras, legados, filhos… A intenção é para que possamos contribuir no mundo ou com a nossa comunidade. Entendo que o procriar aí tem a ver com não ser estéril, para que nasçam frutos benéficos de cada pessoa. E os frutos estão também nas obras e ações. A ideia da contribuição e do legado é mais complexa e trato disso num outro momento.

Por último, tudo na Torah tem o intuito da busca do luminoso, do benéfico e do bom. Quando vamos em direção ao ódio e a intolerância estamos incontestavelmente indo na direção contrária do que nos pede o livro sagrado. Se existe uma lei que diz algo como “Abomine o mal do seu irmão” ou “Se afaste do seu irmão se ele faz o mal”. Há também “Ame o seu irmão”. São duas leis que criam um conflito: como posso abominar, se devo amar? Entendo que se duas leis se confrontam a mais benevolente deve se sobrepor. Mas você tem o direito de achar que a mais restritiva deve prevalecer. Mas lembre, como você vai expandir o coração se odiar?

Alguns podem dizer que o amor é para quem segue a regra e a abominação para quem não segue. Mas que raios de amor é esse que ama apenas o igual e afasta o diferente? O intuito do livro sagrado é sempre luminoso, inclusivo e benéfico.

Longe de mim falar contra a Torah, não é esta a intenção. Como disse, para mim a linguagem ali é simbólica. Tentei apenas argumentar dentro de uma ideia de literalidade. Entretanto, olhar apenas pelo literal faz com que muitas das passagens ali percam o sentido ou acabem gerando um conflito com o ensinamento maior. Ali está muito mais do que o literal. E olhar tudo apenas por essa visão nos impede de avançar além e encontrar realmente a porta para a iluminação. Aprendi com minha mestra (@saatmaet) que D’us não quer seguidores cegos, ele deseja que nós possamos pensar e avançar por nós mesmo, se não para quê o livre arbítrio?

Estamos aqui aprendendo a discernir, e com isso construir a nós mesmos, assumir a responsabilidade de nossas escolhas, ir amadurecendo enquanto criatura e alargando o coração. Assim, quem sabe, refazer o caminho de volta da Criatura no Paraíso.

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