Filmes e Espiritualidade: A Viagem (Cloud Atlas) – Tudo está conectado

O filme ‘A Viagem’ (Cloude Atlas) das irmãs Lily e Lana Wachowski (Matrix e V, de Vingança) e do alemão Tom Tykwer (Corra, Lola, Corra; Trama Internacional) talvez seja um exercício inicial de outra idéia que viria a ser trabalhada mais adiante, no seriado Sense8.

O filme começa a partir de uma narração e apresentação vinda do que chamaríamos de futuro. Digo chamaríamos porque o filme, aparentemente, contesta uma linha cronológica de tempo.

A personagem Zachry, interpretado por um Tom Hanks quase descaracterizado, avisa que ouve sons de várias histórias contadas pelos ancestrais, mas que todas as histórias parecem uma só. Ele explica também que ouve uma outra voz que parece vir da escuridão. Uma voz que ele identifica como o mal, talvez um mal que está dentro dele ou que ele carrega… O prólogo se estende apresentando os personagens centrais cujas histórias iremos acompanhar ao longo do tempo, desde o século XIX até o ano 2321, de onde Zachry conta sua história.

Assim, Cloud Atlas ( que na tradução seria algo como Mapa nas Nuvens) mostra um quebra cabeça difícil de montar, mas que ao mesmo tempo faz sentido ao olhá-lo de longe. Como em qualquer insight, não é possível encaixar tudo, explicar tudo. O filme funciona também como aquelas telas que de perto têm um sentido, mas de longe ganham outra aspecto, construindo um sentido que lança mais luz sobre o que é particular. Contudo, se formos nos ater aos detalhes, nos perderemos sem conseguir encaixar tudo, serão conjecturas sem sentido… e deixaremos escapar o insight…

Não sei se me entendem…

O filme conta como personagens vividos por Tom Hanks, Halle Berry, Hugh Grant, Susan Sarandon, Jim Broadbent, Hugo Weaving, Jim Sturgess, Ben Whishaw, Keith David, David Gyasi, Zhou Xun e Doona Bae vão trocando de sexo e etnias diversas vezes ao longo dos séculos. As histórias e personagens se entrecruzam e dão impulso para o futuro. Tudo contado de forma linear dentro de cada história, mas com uma aparente desordem no filme. No filme, é como se todas as histórias acontecessem ao mesmo tempo, pulando para passado, presente e futuro, quase aleatoriamente. É estimulante ver como o mosaico vai sendo formado e como todas as histórias estão conectadas.

A impressão é que os diretores gostariam de ter dividido a tela em várias partes e contado as histórias simultaneamente.

A história tem dois fios. Um cronológico… A história começa no futuro mais distante e finaliza da mesma forma.

O outro fio nos faz questionar de quem estamos acompanhando a vida… Parece que seguimos as vidas de duas almas principais no decorrer do tempo. A personagem central é apresentada sempre marcada com um sinal (uma estrela cadente ou cometa) em diferentes partes do corpo. A pessoa que carrega a marca normalmente tem alguém que lhe dá suporte. São pessoas que ‘atuam’ como ‘coadjuvantes’, para o bem ou para o mal da personagem central. Parece difícil entender? Talvez, com certeza exige concentração e pelo menos uma segunda olhada no filme, mas é gratificante.

Cloud Atlas é baseado em um complexo livro de David Mitchell. Narra seis histórias que se intercalam, mas que ocorrem na vida de vários personagens diferentes em vários momentos diferentes da história. De forma simplificada e cronológica estes são os episódios da trama:

Vou tentar não dar spoilers, mas pode ter algumas pistas, sorry! 😉

Se não quiserem ler o resumo das histórias pulem para mais abaixo…

– Uma viagem pelo Pacifico Sul durante o século 19, onde um advogado (Jim Sturgess) viaja até uma ilha com o intuito de concluir um negócio em nome do seu sogro e onde pode ver com os seus próprios olhos os problemas da escravidão. A viagem mudará sua perspectiva do que vem a ser a vida, direitos humanos, amizade e amor.

– O percurso de um jovem compositor homossexual dos anos 30 (Ben Wishaw) que começa a trabalhar como uma espécie de copista para um conceituado compositor belga, acabando por criar a sua própria grande obra, o “Sexteto Cloud Atlas” e envolvendo-se em conflito com o seu mestre.

– A história de uma jornalista dos anos 70 chamada Luisa Rey (Halle Berry) que se vê no meio de uma conspiração que tenta desmascarar os planos que lideres petrolíferos têm para destruir a credibilidade da energia nuclear, pondo em risco até a segurança da população.

– A vida de um velho editor literário em 2012 (Jim broadbent) que vê a sua vida complicar-se depois do seu principal cliente matar um critico literário em plena festa de lançamento de um livro, e após o seu próprio irmão o fechar num lar para idosos que em tudo se assemelha a uma prisão.

– A libertação de uma clone (Doona Bae) em Nova Seul por parte de um grupo rebelde e as consequências desta libertação para o resto da civilização mundial.

– Um mundo onde as consequências de todas as histórias anteriores levaram a uma sociedade pós apocalíptica e primitiva onde um pastor de cabras (Tom Hanks) se vê obrigado a enfrentar os seus medos após um ato de covardia.

Sem spoilers a partir daqui…

O filme é ambicioso e a ideia de deixar as histórias como um quebra cabeça que nós mesmos vamos montando ao longo da projeção é realmente uma tirada de mestre, isso faz com que histórias aparentemente simples ganhem um toque a mais.

Outro ponto forte é a própria ideia: contar o desenvolvimento e o entrecruzamento de vidas e almas procurando deixar mais claro as motivações futuras e os laços que vão sendo criados por ações do passado é um ponto de partida maravilhoso. Não vou contar mais sobre o filme, apenas deixar algumas citações que a história traz.

Quando o advogado ouve de um senhor escravocrata que “Este mundo tem uma ordem natural e aqueles que tentam subvertê-la não se dão bem” e que ele ao lutar pela abolição será apenas um gota no mar. E o advogado responde: ‘mas o que é o mar, senão as gotas juntas”…

Seguem abaixo outras frases que nos são jogadas durante o filme, que servem para pensar e montar o mosaico que a história propõe.

Estou tentando entender porque sempre cometemos os mesmos erros repetidamente…” 

 “Nossas vidas e escolhas, cada encontro, sugere uma nova direção possível” 


 “Cruzamos e recruzamos antigos caminhos como patinadores num ringue” 


 “Medo, fé, amor, fenômenos que determinam o curso de nossas vidas. Essas forças começam bem antes de nascermos e continuam após nossa partida” 


 “Nossas vidas não são nossas. Estamos vinculados a outras vidas, passadas, presentes… e de cada crime e cada ato generoso moldamos nosso futuro”

Recomendo.

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