Horizonte Perdido, um musical em busca da consciência

O filme Horizonte Perdido de 1973, musical dirigido por Charles Jarrott e baseado em romance homônimo de James Hilton, é um dos meus preferidos. Há uma versão anterior, de 1937, do qual este é um remake, em preto e branco e dirigida por Frank Capra.

O livro de James Hilton, que deu origem ao filme, concebido logo após a depressão americana e no pós guerra, criava uma utópica localidade, um lugar mágico entre as belíssimas e inacessíveis montanhas congeladas do Tibet, onde pessoas de diversas nacionalidades viveriam de forma livre, partindo do princípio do uso da moderação em todas as suas atividades e atitudes. Assim, Shangri-La, era assim chamado o tal Horizonte Perdido, representava uma espécie de Novo-Eden.

Mas voltando ao filme. Antes de tudo, confesso que adoro os filmes de Capra, mas esse filme de Jarrot, é superior, ainda que na época do lançamento tanto a crítica quanto o público não tenham gostado. Minha preferência talvez seja pelas canções, todas do genial Burt Bacharach, além da performance dos atores, é claro, ainda que não dê para dizer que há alguma química realmente entre os casais formados. O cast do filme conta com gente com Peter Finch, Liv Ullmann, George Kennedy, Sally Kellerman, Michael York, Charles Boyer, Bobby Van e John Gielgud. As coreografias tem uma simplicidade que contribuem para o charme do filme.

Claro que os críticos podem dizer que a simplicidade das coreografias é falta de criatividade, que esse mundo perfeito é branco demais, anti-gay e pró-família cristã demais, mesmo considerando que a história se passa no Himalaia. Alguns ainda podem estranhar que o Dalai Lama do monastério é um padre francês. Mas o filme não trata disso, de sectarismos, mas de reuniões. De qualquer forma, acredito que algumas dessas interpretações são exageradas. Algumas delas equivocadas mesmo…

Críticos, nem sempre dá para ler alguns filmes com o senso crítico ácido de sempre, e Horizonte Perdido é um desses filmes. É preciso embarcar na proposta.

A história. Durante um conflito na China – não fica claro qual é o conflito realmente. Um grupo de fugitivos, desconhecidos entre si, tem seu avião seqüestrado. Enquanto voam sem saber qual será o destino, uma tempestade derruba o avião que cai em algum lugar do Himalaia. Os sobreviventes são resgatados por pessoas que habitam um lugar chamado Shangri-la, onde existe a eterna juventude e a felicidade plena.

Ainda no avião, somos apresentados a Richard Conway (Peter Finch) um graduado funcionário da ONU e seu irmão, o egoísta George Conway (Michael York). Também encontramos a solitária Sally (Sally Kellerman), uma repórter do Newsweek infeliz que vive se entupindo de remédios para perder a sobriedade. Sam Cornelius (George Kennedy) um empresário/engenheiro ganancioso e Harry Lovett (Bobby Van) uma espécie de humorista/quadrinista que não tem mais a atenção do público.

A equipe que resgata os viajantes é comandada pelo misterioso Chang (John Gielgud). A equipe de Chang conduz a turma até Shangri-la. Lá, aos poucos, cada um vai se deixando envolver pela atmosfera mágica do lugar. Como se fossem se desintoxicando. Vão sendo revelados aspectos positivos desses personagens antes ocultos.

As músicas enriquecem a obra. Logo nas cenas iniciais vemos as montanhas do Himalaia ao som da música de Burt Bacharach & Shawn Philips tema do filme: “Alguma vez você já sonhou com um lugar. Longe de tudo. Onde o ar que respiramos é limpo e macio. E as crianças brincam nos campos verdes. E o som das armas, não é ouvido (mais). Muitas milhas de ontem, antes de chegar amanhã. Onde o tempo é sempre hoje”.

Ou ainda a bela música cantada por Sally Kellerman “Quando você olha para si mesmo, – você gosta do que vê? Se você gosta do que vê, você é a pessoa que deve ser. Porque o seu reflexo reflete em tudo que faz, e tudo que você faz reflete em você. Quando você acorda todos os dias, você gosta de como você se sente? Se você gosta de como você se sente, você não tem nada a esconder. Quando você se deita para dormir – você gosta dos seus sonhos. Se você gosta de todos os seus sonhos, a vida é tão feliz quanto parece”.

Há pelo menos dois outros momentos memoráveis, quando Kellerman e Olivia Hussey cantam ‘The Things I Will Not Miss’ e quando Bobby Van dá uma aula para os nativos. Para mim, o filme é mais que um manifesto pacifista e cumpre seu papel de questionar qual é a civilização que estamos criando e o que nos motiva. Horizonte Perdido é um filme reflexivo, que questiona nossos valores e nos faz olhar para o mundo com um olhar crítico, mas ao mesmo tempo compassivo. As músicas tornam esse olhar um pouco menos doloroso, em suas constatações. As críticas por ele não ser plural em sua apresentação, para mim, não são pertinentes. Falam muito mais da indústria cinematográfica do que da proposta. Por isso, recomendo.

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